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Quem faz a DW! SP 2024: a jornalista e curadora convidada Winnie Bastian fala sobre design e legado do festival em SP

“Arquiteta de formação, jornalista de profissão, curiosa de carteirinha”. É assim que a jornalista, arquiteta e curadora Winnie Bastian se apresenta no perfil @designdobom, do Instagram, versão na rede social do blog produzido por ela desde 2010. Winnie é curadora convidada da DW! Semana de Design de São Paulo em 2024, assinando uma das exposições, e a gente traz um pouco da história dela – que começou por acaso no jornalismo especializado em arquitetura e design e gostou do riscado.

Winnie conta que nunca atuou como arquiteta. Logo após se formar na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), veio pra São Paulo e a primeira oportunidade de trabalho foi na revista Arc Design, cuja diretora, à época, era a crítica e jornalista Maria Helena Estrada“Tinha 22 anos, recém-saída da faculdade: fiz um currículo formal, incluí meu certificado de pesquisa do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], mas a Maria Helena tinha um jeito nada convencional de selecionar sua equipe. Quis saber meu signo, meu ascendente, folheou o currículo e me perguntou se eu queria começar naquele momento”.

Cadeira-Colo desenvolvida com a participação da I.A. Midjourney por Carla Madeira, Cris Cortez e Márcia Lima | Foto: Reprodução @nossacasa_show

Winnie atuou na redação da Arc Design por sete anos e, além da escrita, assessorava Maria Helena na curadoria de exposições. Dali engatou um mestrado que relaciona moda e design e fez alguns trabalhos para as revistas do núcleo Casa da Editora Abril. Depois, editou a revista de iluminação L+D, foi depois convidada a criar o site da Casa Vogue e, posteriormente, tocar a editoria dedicada ao design na revista, onde ficou até 2018. De lá para cá, presta consultorias, realiza palestras, colabora com diversas publicações, mantém seu blog e faz curadoria. É aí que sua história se cruza, de maneira estreita, com a da DW!.

DW!  – Qual seu papel com curadora na DW! SP? Já participou outras vezes?
Winnie – Em 2019, fiz a primeira curadoria para a DW! SP, mas naquele ano o trabalho era de curadoria editorial em parceria com outras profissionais, como a Lúcia Gurovitz. Ano passado, no Instituto Tomie Ohtake, durante a DW! SP, realizei em parceria com a designer Camila Fix a curadoria pocket de um experimento coletivo sobre inteligência artificial. Em Futuros (Im)possíveis propusemos a designers, artistas, escritores e arquitetos que criassem um objeto-híbrido para a casa junto com a inteligência artificial Midjourney.

O mundo hoje é profuso, com uma disponibilidade de informações e possibilidades visuais que nunca foi tão grande, e a curadoria é importante para dar foco, direcionar o olhar. Isso se faz com um conceito bem estudado e amarrado. – Winnie Bastian, jornalista, arquiteta e curadora

Foi bem interessante e desafiador e rendeu boas reflexões. Um exemplo foi a Cadeira-Colo pensada por Carla Madeira, Cris Cortez e Márcia Lima, da @lapisraro, que questionava: “quando a mãe dá colo à criança, quem acalenta a mãe?”. Então, o híbrido unia uma poltrona de amamentação e uma espécie de cápsula de relaxamento que daria à mãe o mesmo conforto físico e emocional que ela dá ao seu filho enquanto o alimenta.

Poltrona Varal, inspirada na tapeçaria de tear manual de Minas Gerais, criada pelo designer Porfírio Valladares | Fotos: Reprodução @designdobom

Este ano, retomo como curadora convidada da DW! SP, mas de uma mostra específica cujo enfoque é olhar para o design em nosso cotidiano, o design que está em tudo e é para todos. A ideia é falar dos objetos do dia a dia e que não enxergamos como peças de design. Com a mostra, queremos desbanalizar esses objetos, olhá-los sob uma nova lente. Ainda não posso dar detalhes, mas logo vocês ficam sabendo aqui pelo blog da DW!, não é?

DW! – Quais são os elementos mais importantes da curadoria de design para a DW! SP?
Winnie – O mais importante e, também, o ponto de partida é o conceito. O mundo hoje é profuso, com uma disponibilidade de informações e possibilidades visuais que nunca foi tão grande, e a curadoria é importante para dar foco, direcionar o olhar. Isso se faz com um conceito bem estudado e amarrado.

O segundo ponto é a comunicação, que precisa ser instigante: a forma como a história vai ser contada – a escolha dos objetos, a expografia, o percurso narrativo, se outros elementos sensoriais como os olfativos e sonoros serão usados etc. – deve ser interessante e provocativa sem ser hermética.

DW! – Você acompanha a DW! SP há tempos. Quais as principais transformações que observa nesses últimos anos do festival?
Winnie – Percebo que, nos primeiros anos, os participantes e eventos eram muito mais concentrados em lojas. Com o passar do tempo, foi crescendo a participação de designers independentes, que trazem um frescor necessário ao festival. Afinal, esses dois polos se complementam e garantem a possibilidade de mais experimentação. Vejo também um aprofundamento em termos de entrega de conteúdo para o público.

Há uma preocupação crescente em oferecer ações enriquecidas de diálogo com palestras, exposições, bate-papos… É uma ascensão da consciência do lojista, do empreendedor, de que é importante amarrar, estruturar os produtos oferecidos com conceitos relevantes, de interesse. O público agora, mesmo que não seja de profissionais [ligados ao segmento arqdecor], percebe que existe um interesse em divulgar o design para além do próprio mercado. Em termos de abrangência [dos Distritos] do festival, a expansão para o Centro, com exposições como a [realizada pela Somauma] no Edifício Virgínia, aproxima artistas e demais criativos de áreas adjacentes como o cinema, além do público amplo, do evento. Deixa o festival e o que está sendo apresentado mais convidativo, palatável.

Banco-cadeira Primates, assinada pro Achille Castiglioni em 1970, focada em uma ação e não em um modelo de cadeira | Fotos: Divulgação

Festivais como a DW! SP são impactantes em diversos níveis. […] Há o crescimento da consciência do que é design, de como ele está em toda parte e que todos podemos usufruir dele. Que design não está só no móvel caro, mas na vida cotidiana. – Winnie Bastian, jornalista, arquiteta e curadora.

DW! – Como o papel da curadoria evoluiu frente ao mercado e às novas tecnologias?
Winnie – A curadoria, na sua origem, era restrita ao campo das artes. Em relação ao mercado de design, até alguns anos atrás não se falava muito em curadoria – o que havia eram críticos e jornalistas de design. Mas esse cenário vem mudando, porque o volume de informação e de conteúdos disponíveis faz a curadoria trazer relevância àquilo que está sendo mostrado. Antes, quando se falava de curadoria de design, a Paola Antonelli, curadora do Departamento de Arquitetura e Design do MoMA, em Nova York, era um nome um tanto isolado nesse campo. Hoje, ela continua tendo um olhar muitíssimo relevante, mas é possível ver muito mais pessoas fazendo curadoria em contextos diversos.

O processo curatorial ganhou ênfase em outras áreas e evoluiu bastante. Afinal, uma exposição não é – ou não deveria ser – fechada nela mesma. Uma mostra é um ponto de partida para outras reflexões, universos. O papel do curador é, também, poder estimular a continuação do debate. Essa continuidade pode aliar a tecnologia por meio de QR Codes com conteúdo extra, interfaces interativas, equipamentos que permitam a imersão e demais recursos que ofereçam uma experiência diferente, enriquecida.

DW! – Como você vê o design brasileiro contemporâneo? O que te chama a atenção e quais os movimentos mais importantes da área atualmente?
Winnie – O design brasileiro, nos últimos anos, vem cada vez mais olhando pra dentro do Brasil. Não era assim até recentemente, antes era comum que se mirasse no design italiano, holandês, escandinavo, que as referências viessem de fora. Mas vejo um movimento de decolonização forte, que olha para as raízes brasileiras, para referências sul-americanas, para o que chamamos de Sul Global. Muitos criativos têm se voltado e baseado suas criações nos conhecimentos dos povos originários, na cultura do seu estado, seu local de origem. As referências são locais, pertencentes a nós.

Claro, nosso design é mais recente de certo modo, em relação ao feito na Itália, por exemplo, e esse olhar para dentro era questão de tempo, porque a gente tem muita riqueza a ser buscada e mostrada. E é esse percurso que cria de forma mais autêntica, genuína. Um bom exemplo é o do Porfirio Valladares [@porfiriovalladares], que recentemente apresentou um banco inspirado nas cadeiras caipiras e uma poltrona que se baseia nos trilhos de tear das suas Minas Gerais.

Ambientes do Edifício Virgínia, no Centro, que abrigaram a exposição ‘Quanto Tempo Temos?’, durante a DW! 2023 | Fotos: Acervo DW!

DW! – Quais os desafios do design em um mundo tão saturado de informações e referências? Onde buscar inovação?
Winnie – Acho que o caminho é o que muita gente vem tomando: o que direciona nosso olhar para o entorno próximo, mas um olhar que se quer menos viciado, porque muitas vezes a gente passa, olha e não vê. É preciso aguçar o olhar para o nosso entorno e buscar e referências que estão além da arquitetura e do design. Expandir o olhar ao macro e então voltar ao micro, num movimento contínuo de experimentação. Porque a inovação passa pela experiência.

Um exemplo são os materiais inovadores e sustentáveis [como os biomateriais] ou que talvez não tenham sido usados para aquele fim e que podem gerar resultados inesperados. Outro aspecto de extrema importância é centrar o pensamento no usuário, porque é comum a gente ainda pensar no objeto em si e não no uso contemporâneo. Será que o ato de sentar de hoje é o mesmo dos Modernos? Em vez de coisas – substantivos –, a criação poderia partir de verbos, ou seja, observar e projetar a partir da ação em seu tempo e não do que já existe.

DW! – A DW! Semana de Design de São Paulo é um evento amplo e perene. Que tipo de legado movimentos como o do festival podem deixar para a cidade, para o mercado e para as pessoas?
Winnie – Festivais como a DW! SP são impactantes em diversos níveis. Para o público amplo, há o crescimento da consciência do que é design, de como ele está em toda parte e que todos podemos usufruir dele. Que design não está só no móvel caro, mas na vida cotidiana. Para o designer em si, há um incentivo à criação, porque a DW! se tornou uma grande vitrine e cria um estímulo a mais para que se fuja do lugar-comum.

Para a cidade, existem legados permanentes e outros que chamam a atenção pontualmente para problemas discutidos como embriões da mudança. Em uma edição recente, por exemplo, houve uma movimentação quanto aos bicicletários, ciclovias, ao uso das bicicletas como meio de transporte. Este ano, os rios que pouco vemos estão sendo abordados pela comunicação visual e podem fazer pensar em ‘por que a gente não vê o rio? Será que é possível ter uma cidade menos impermeável? Uma vida mais próxima à natureza?’. Outro ponto é o da possibilidade de contribuir para o resgate de espaços degradados, como o Centro; entender que aquele é um lugar a ser ocupado e que não há regeneração possível sem as pessoas.

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