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Quem faz a DW! SP 2024: conheça a curadora Lúcia Gurovitz, que fala sobre design brasileiro, inovação e mais

A DW! Semana de Design de São Paulo completa 13 edições, consolidada como o maior festival urbano de design da América Latina e um dos cinco mais importantes do mundo. Sua história é feita de gente, que participa de formas diversas de sua construção e de todo o movimento que reverbera pela cidade, ultrapassando diversas fronteiras. Não por acaso, parte dessas pessoas tem suas vidas ligadas de forma extensa com a da DW!. Uma delas é a curadora Lúcia Gurovitz.

A trajetória da Lúcia no jornalismo começa em 1997, quando participou do Curso Abril – da editora homônima – na redação da revista Casa Claudia. Na publicação, passou por diferentes funções e tornou-se redatora-chefe. Lá, também, fez sua primeira curadoria ligada à DW!, em meados dos anos 2010, e participou do desenvolvimento e edição do guia que a DW! produzia. Os caminhos percorridos pela Lúcia ajudam a entender o que é atuar como curadora editorial ou de conteúdo. Vem com a gente saber um pouco mais dessa história e desfrutar da visão de alguém que conhece a fundo o design.

Exposição “Para o Conforto da Alma – Mobiliário dos Séculos XVIII e XIX do Museu de Arte Sacra”, na DW! SP 2013, com curadoria de Lúcia Gurovitz | Fotos: Acervo DW!

DW! – O que faz uma curadora? No que difere o trabalho curatorial de um festival como a DW! e de uma exposição de arte, por exemplo?

Lúcia – Costumo comparar o trabalho do curador com o de editor, ou seja, algo muito próximo da minha formação como jornalista. Um curador faz escolhas de modo a contar uma história da melhor maneira possível. Ele define o fio condutor de uma exposição de museu ou galeria, seleciona o que será mostrado e quais serão os elementos narrativos e sensoriais de apoio, para que o público entenda o enredo com facilidade e se encante com a experiência.

Na DW! é um pouco diferente, porque não fazemos uma curadoria tradicional: não dizemos o quê e como as marcas participantes devem fazer em suas ações, mas oferecemos insights para o desenvolvimento de ideias e tratamos basicamente de comunicação. Chamamos isso de curadoria de conteúdo. Meu papel é escutar e entender o que os expositores prepararam, encontrar a melhor maneira de contar essa história e organizar a estratégia de conteúdo para alcançar os objetivos formulados por eles.

Hoje, há uma percepção do valor do design autoral muito maior do que há 10, 15 anos, e a DW! SP está aí para provar, já que a participação dos designers no festival cresceu exponencialmente do primeiro ano para cá. _ Lúcia Gurovitz, curadora da DW! SP

DW! – De 2019, seu primeiro ano como curadora da DW!, até hoje, o que mudou na cena nesse período?

Lúcia – Já havia feito uma curadoria anteriormente, mas no ‘modelo tradicional’. O Museu de Arte Sacra de São Paulo tem um acervo incrível de mobiliário e em 2013 participou da DW! SP com uma exposição, que precisava de curador. À época, eu ainda estava na Casa Claudia, que era parceira editorial da DW! SP. Foi uma curadoria baseada em cadeiras de acervo do museu datadas dos séculos 18 e 19. Eram peças sem autoria clara e foi muito interessante o processo: o recorte levou em conta a variedade de desenhos, tons de madeira, tipos diferentes de entalhe, acabamento e outras particularidades dentro daquele universo. Já o que faço desde 2019 é diferente, voltado ao conteúdo editorial.

Hoje em dia, todo mundo que participa da DW! SP já entende o papel da curadoria editorial, mas sempre inicio as reuniões com as marcas relembrando como funciona. Oferecer a curadoria cria expectativa e cobrança maiores quanto à qualidade do conteúdo, porque a abordagem parte de um profissional que traz conhecimento, vivência sobre o design.

Ocupações criativas do Centro de SP durante a DW! 2023: exposição no Edifício Virgínia, por Somauma, e Design na Galeria Metrópole | Fotos: Acervo DW!

DW! – O festival tem um tema geral que deve ser seguido?
Lúcia – Já fizemos edições da DW! SP com tema, como em 2020 – durante a pandemia de Covid-19 – em um sistema híbrido e com o mote ‘Primavera’, mas a adoção dele era livre. Esse ano, os rios que fundaram São Paulo regem a identidade visual do festival, não é obrigatório que as marcas sigam, mas elas podem se inspirar e aproveitar o engajamento. Afinal, é um tema que tem uma pegada forte de meio ambiente, atual e importante.

DW! – O que você aponta como características do design brasileiro? Quais são os movimentos de design mais fortes no país?

Lúcia – Hoje, há uma percepção do valor do design autoral muito maior do que há 10 ou 15 anos, e a DW! SP está aí para provar, já que a participação dos designers no festival cresceu exponencialmente do primeiro ano para cá. Para mim, uma das características mais marcantes do design brasileiro, hoje, é que entendemos que somos ‘filhos do Modernismo’. Os grandes mestres do século 20, como Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Jorge Zalszupin, são referência para os criadores contemporâneos, que desenham produtos para as demandas atuais.

Temos uma história, e os designers contemporâneos dialogam muito bem com ela. Também há um material que caracteriza muito bem o nosso design, que é a madeira, pois historicamente ela é abundante em nosso território. Os designers na ativa construíram uma trajetória a partir do conhecimento dos mestres do Modernismo para chegar a uma inteligência no uso da madeira, que respeita os cuidados ambientais na extração e aproveita ao máximo esse bem tão precioso, sem desperdício. Claro que num estágio mais industrializado do que no passado, mas que não exclui as etapas artesanais.

Instalação com as saias da Cumbia colombiana, inspiração para a coleção Ballhaus, de 2016, da italiana Marní, na Semana de Design de Milão | Foto: Divulgação

DW! – Quais os desafios do design – e da curadoria – em um mundo tão saturado de informações e referências? Onde buscar a inovação?

Lúcia – A contemporaneidade traz o desafio da originalidade. É muito difícil ser original hoje em dia e, por isso, é tão importante buscar nossas raízes e beber nessas fontes que são nossas, que tecem a nossa cultura. Nesse mundo em que tudo é muito visto – com imagens circulando sem fronteiras e com velocidade muito grande –, existe saturação e é difícil encontrar algo que tenha frescor. Este é um dos desafios do design.

O outro grande desafio é a reflexão de que se algo deve existir ou não. Para algo existir, ser criado nesse contexto de saturação, o objeto precisa ser relevante. Criar pressupõe resolver uma questão, uma necessidade, mas não só. Se vou desenvolver algo, que seja sustentável, que talvez possa atender a várias necessidades e não apenas uma. Não dá para ignorar o desafio da circularidade, do ciclo completo de vida do objeto, desde a origem mais correta possível do material até o final de sua vida útil. Como esse produto vai se decompor? Pode ser reciclado? Pensar em um design que não deixe resíduos é essencial.

Também recomendo curtir a DW! SP com um propósito de enriquecimento, aprendizado. Não é só entrar em um lugar e garantir uma boa foto, mas tentar compreender a proposta, aquela história contada ali. _ Lúcia Gurovitz, curadora da DW! SP

DW! – Quais são os conselhos que você dá ao público para aproveitar o festival ao máximo?

Lúcia – A primeira coisa é acompanhar a programação: entrar na plataforma da DW!, se engajar nas redes, assinar a newsletter e tentar montar a sua agenda, aquela que mais faz sentido para você, levando em conta os deslocamentos. Também recomendo curtir a DW! SP com um propósito de enriquecimento, aprendizado. Não é só entrar em um lugar e garantir uma boa foto, mas tentar compreender a proposta, aquela história contada ali. Por exemplo, muitas vezes a pessoa vai a um lançamento e o designer está lá. Então, por que não conversar, tentar entender a razão daquilo ter sido criado, qual a história da coleção? São oportunidades raras, e esse contato humano é o que faz participar valer a pena.

DW! – E para as marcas que nunca participaram e desejam fazer parte da DW! SP 2024, qual a dica?

Lúcia – Façam um planejamento prévio e cheguem com propostas bacanas aliadas a ações que gerem diálogos e conhecimento como uma palestra, uma conversa. Pra quem vai participar pela primeira vez, vai o conselho: não tenha receio, mesmo que a sua marca comece ‘pequenininha’, porque há uma curva de aprendizado e o processo fica mais legal a cada ano.

Everyday Paradise: exposição com obras de arte e design alagoano que estreou na Semana de Design de Milão em 2023 | Fotos: Reprodução @alagoasfeitoamao

DW! – Conta pra gente uma ação da DW! SP 2023 que te marcou e uma de outra semana de design mundo afora e por quê?

Lúcia – O mais interessante nos últimos três anos na DW! SP é essa movimentação no Centro de São Paulo, com a Galeria Metrópole, o Paulo Alves, o BoomSPDesign que ocupou o Copan em 2023, as exposições no Edifício Virgínia nos últimos dois anos. Esse movimento de resgate do Centro é importante e necessário, as pessoas precisam gostar de ir ao Centro, e o que é capaz de fazer isso acontecer é esse ocupar criativo. Esse núcleo de criativos da Galeria Metrópole é sensacional e resgatou um marco da arquitetura paulistana que estava um tanto decadente, mudando a perspectiva sobre ele. E é muito legal quando essas iniciativas envolvem o entorno, os equipamentos culturais, como a Biblioteca Mario de Andrade.

Olhando pra Milão, vejo que as indústrias de moda e design são muito maduras lá e dialogam de maneira fácil. O casamento entre Moda e Design de Produto é muito interessante. Lembro de uma ação da Marní [marca de moda italiana] que, ao lançar uma coleção de mobiliário, criou uma exposição com saias de cumbia, porque a inspiração era a cultura colombiana. Em Milão, as marcas não se furtam a explorar novas linguagens e regiões, lugares novos e inexplorados, com propostas interessantes. Acho que seria interessantíssimo que ‘importássemos’ esse desprendimento e, também, tivéssemos mais instalações [de arte] espalhadas pela cidade. Porque elas acabam chamando a atenção, criando um burburinho para o que está acontecendo.

Se posso citar uma ação em específico, gostaria de lembrar a ‘Everyday Paradise’ [patrocinada pelo Alagoas Feita à Mão] com curadoria de Lidewij Edelkoort & Lili Tedde e pesquisa de Rodrigo Ambrosio, que estreou na Semana de Design de Milão de 2023. Uma curadora com o olhar dela [a Lidewij é holandesa e uma das pesquisadoras de tendências mais respeitadas do mundo] direciona a sua atenção para a arte popular brasileira, uma de nossas maiores riquezas, com expoentes desde sempre. E essa manifestação tão diferente e especial dá nó na cabeça do ‘gringo’, mostra uma nova cara do Brasil, o que é extraordinário.

DW! – Quais são os legados que um evento como a DW! Semana de Design de São Paulo pode deixar para a cidade, para o mercado e para as pessoas?

Lúcia – Ocupar a cidade, criar diálogos e trocas de conhecimento, fortalecer parcerias e valorizar a criação nacional. Temos muita informação vinda de todos os lados e o tempo todo e fazer uma curadoria do que a gente vai consumir é essencial.

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