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Arquitetura, etimologia tupi e raíz brasileira dão corpo à obra do M.O.A. Estúdio

Bancada de serigrafia do M.O.A. Estúdio, onde trabalha o artista plástico e designer gráfico Marcus Dan | Foto: Divulgação

Quando a gente olha uma gravura do M.O.A. Estúdio, talvez, a primeira impressão que se forme é a de um diálogo com as geometrias da Bauhaus, os azulejos de Athos Bulcão ou os grafismos hipnotizantes da Op Art dos anos 1960. Mas o caldo que condensa as criações do designer gráfico e artista plástico Marcus Dan vai além.

Cerca de sete anos atrás, o M.O.A. surgia como um trabalho paralelo, feito para “desopilar” o dia-a-dia da indústria da moda que há 18 anos absorvia as criações têxteis e gráficas de Marcus. A esposa e parceira de empreita, Adriana Lie, vivia a moda na “outra ponta”, fazendo a gestão comercial das marcas.

O artista plástico Marcus Dan trabalha em seu estúdio | Foto: @valentin_studio/ Divulgação

Com o tempo, o quase hobby tomou corpo e, aos poucos, ocupou a dupla de forma integral: casa, inspiração, coração e novo modo de vida. Marcus criava e Adriana “fazia a engrenagem girar”, através da inteligência de mercado: eventos, vendas, planejamento, parcerias, que transbordaram em 2022 – quando a pandemia arrefeceu – em um ateliê-galeria em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, aberto pouco antes da DW! 2022 e inaugurado oficialmente durante o Festival.

Impressões de outrora

Vistas do M.O.A. Estúdio, ateliê-galeria recém-inaugurado em Pinheiros | Fotos: Divulgação
Vistas do M.O.A. Estúdio, ateliê-galeria recém-inaugurado em Pinheiros | Fotos: @valentin_studio/ Divulgação

A manualidade das serigrafias do M.O.A Estúdio, que cria telas únicas e reproduções numeradas e limitadas, foi inicialmente aprendida no chão de fábrica, quando Marcus acompanhava os processos de estamparia das peças de vestuário. À técnica somou-se a influência da Arquitetura Modernista Brasileira dos anos 1950 a 70, que veio na bagagem, quase ao acaso, desde a infância.

A paixão pelos trabalhos de mestres como Oscar Niemeyer começou cedo, com o olhar acostumado pela própria morada: o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, conhecido como Cecap, e projetado pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas, Fábio Penteado e Paulo Mendes da Rocha, em Garulhos (SP). “Meus pais falavam sobre o Artigas, contavam a história dele. E as marcas do modernismo estavam ali: pilotis, superquadras, marquises”, conta Marcus.

Além do gosto pela arquitetura, o interesse pela etimologia das palavras do nosso cotidiano com origem Tupi-Guarani fundamenta a criação. Apesar de parecerem distantes, esses dois mundos são próximos e, também, se encontram no trabalho do M.O.A.. “A influência indígena está no cotidiano e a relação da arquitetura modernista com a cultura dos povos originários é muito forte. Apesar do Modernismo Brasileiro ter a influência externa de escolas como a Brutalista e a Bauhaus, aqui ele incorporou sutilezas e suavidades, elementos que herdamos desse saber ancestral aplicados a técnicas modernas até hoje”, afirma o designer.

Work in progress

Primeira serigrafia do M.O.A. Estúdio "Xingu" (à dir.) e a foto que inspirou a obra | Fotos: Divulgação
Primeira serigrafia do M.O.A. Estúdio “Xingu” (à dir.) e a foto que inspirou a obra | Fotos: Divulgação

A primeira arte gerada para o que viria a ser o M.O.A., surgiu influenciada pelo livro “Xingu – Território Tribal”, dos irmãos Orlando e Cláudio Villas-Bôas e com imagens de Maureen Bisilliat, e pela foto de 1969 que registrava um “rol” de andaimes da construção de Brasília. “Xingu”, sintetiza o que busca o M.O.A.: “A Arquitetura Modernista Brasileira é parte integrante e essencial do nosso trabalho. Enxergamos através dessa arquitetura nossa raiz, indígena, negra e europeia”, resume uma publicação que resgata esse processo no Instagram do Estúdio.

A raiz etimológica, pesquisada em dicionários de tupi antigo, dá conta de alimentar esse olhar e vem gerando a inspiração para várias obras, sendo – muitas vezes – o ponto de partida, que desagua em combinações puras de cores, linhas e geometrias dançantes.

Marcus conta, aliás, que não pesquisa ou busca os grafismos de grupos étnicos, para resguardar a originalidade e a importância de tais trabalhos. “A gente, no M.O.A., se preocupa muito com a não-apropriação e o respeito às identidades, as serigrafias nascem de outros referenciais, por exemplo, do detalhe uma janela que eu redesenho e ao qual aplico técnicas de design gráfico. No fim, ela pode formar um padrão que lembra a arte indígena, mas não é”, pontua.

A preocupação de Adriana e Marcus também vai de encontro com os materiais que são usados. As tintas aplicadas às impressões ou usadas nas intervenções acrílicas ou das aguadas são todas à base d’água. Como suporte, papel paraná – feito com massa de pinus -, tela de algodão ou painéis de madeira reflorestada e compensada. Tudo é sustentável e, se possível, certificado.

Primeira parceria

Tapeçarias do M.O.A. Estúdio feitas em parceria com tecelãs de Recife (PE) | Foto: Divulgação
Tapeçarias do M.O.A. Estúdio feitas em parceria com tecelãs de Recife (PE) | Foto: @valentin_studio/ Divulgação

Quem acompanha o Estúdio M.O.A. já deve ter visto, também, tapeçarias com caraterísticas estéticas que acompanham as vistas no trabalho gráfico. “Galeria de um artista só”, o Estúdio ampliou de forma colaborativa seu portfólio técnico ao incorporar a artesania das tecelãs de arraiolo para a feitura dos tecidos tramados.

“Foi um piloto que deu muito certo. Eu admiro o trabalho de um artista baiano chamado Genaro, dos anos 1960, 70… sempre quis experimentar a tapeçaria, mas não fazia sentido se temos artesãos mais especializados. Assim, desenvolvemos as obras em parceria com tecelãs de uma comunidade do Recife (PE), que chegaram até nós pelo Ómana. Um projeto têxtil que capacita artesãos em diversos lugares do nordeste, especialmente no sertão”, conta Marcus. É só o começo.

Se você gostou dessa história cheia de brasilidades e quer conhecer de perto o trabalho do M.O.A. Estúdio, vá até Rua Cônego Eugênio Leitte 944-B, em Pinheiros, São Paulo (SP), das 11h às 17h de quarta à sábado.

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